Sobre a terceira idade, a Fafá e os afetos…

5.set.2016 | Categoria:

De certa forma, minha trajetória profissional está marcada pela insistência em trazer o tema ‘terceira idade’ para o centro do debate. Mas não me limitei a apenas discorrer sobre o grupo de pessoas categorizadas como ‘idosos’ do ponto de vista sociodemográfico, ou mesmo mercadológico, ou ainda numa perspectiva meramente profissional. Isso porque, para mim, trata-se de um tema circunscrito à “rede de afetos”, esta que transcende, inclusive, os meus interesses de estudo (foi tema da minha dissertação de mestrado). Em outras palavras, é na interseção desse campo de estudo e afetos, que venho buscando viver e ‘degustar’ o entendimento acerca do que se convencionou a chamar de ‘terceira idade’.

E foi justamente assim, impregnado de interesses e afetos, que conheci a Fafá de Belém. Cantora consagrada na cena musical brasileira e no exterior. Dona de uma linda voz e de um carisma característico. Uma artista com 40 anos de uma emblemática e respeitável carreira. Apresentado por sua filha, Mariana, fui ao seu apartamento numa manhã de sábado para tomar um café… De quebra, me vi contagiado pela sua alegria de viver e por seu indescritível sorriso! (Se as imagens não dão conta, imagina uma descrição textual…).

A Fafá, além de todo o seu talento musical, tem uma capacidade ímpar de nos levar a refletir sobre as situações e dádivas que a vida nos presenteia. A conversa, que deve ter durado cerca de 2 horas, me levou a conjecturar sobre um universo que me parecia muito familiar. Ledo engano! E o termo “ledo” aqui é mais do que proposital: sua semântica quer traduzir a expressão de “engano alegre”. Ou como diz o próprio dicionário Houaiss, um ledo engano “é aquele gerado sem malícia, de boa-fé, e é usado para caracterizar, com delicadeza, algum erro notório”, possivelmente advindo de certa ingenuidade de um indivíduo “até simplório”, ou mesmo “ignorante”… Sim! É isso mesmo. Estudei tanto os ‘idosos’ para constatar que a Fafá tem a força de um tsunami quando o assunto é contagiar e quebrar paradigmas…

O que eu vi e ouvi, naquela conversa para lá de agradável, foi uma mistura de fé, otimismo, alegria, força, esperança… tudo junto e misturado! Mas o que me impressionou mesmo foi a perspectiva ‘desconcertante’ com que me deparei: uma ampla capacidade de sonhar e de fazer planos, como se a vida começasse agora. Saí de lá totalmente ‘afetado’ (no sentido ‘literal’ do afeto e da capacidade de ‘afetamento’ que a nossa conversa gerou em mim).

Mas agora, você que me lê, deve estar se perguntando: o que tem a ver a Fafá de Belém com a terceira idade? Tudo e nada! Tudo, porque nos próximos dias ela completará 60 anos de vida e será categorizada entre os “brasileiros da terceira idade…” E nada, porque ela nos faz rever todos os antigos paradigmas do que é ‘ser contabilizado entre os idosos”. Saí de lá me perguntando: de que terceira idade eu estava falando mesmo???

Vou explicar… Essa pergunta ecoou na minha mente até eu me sentar para escrever este pequeno texto. Estou num campo no qual os estudos de comunicação e mercado tentam categorizar os agrupamentos dos targets mais velhos a fim de facilitar o acesso e possibilitar maior eficácia na abordagem comercial, assim, o “[…] marketing sênior divide seus alvos em “masters”, “liberados”, “pacatos”, “grandes ancestrais”: é um marketing hipersegmentado que cria novos mercados das terceiras e quarta idades […]” (LIPOVETSKY, 2007, p. 123).

O referido campo de marketing encontra guarida e acolhimento no Brasil tão somente porque não é novidade alguma que hoje, se assiste no Brasil a um verdadeiro boom de idosos. A faixa etária de 60 anos ou mais foi a que mais cresceu em termos proporcionais. Segundo as projeções estatísticas da Organização Mundial da Saúde, entre 1950 e 2025, a população de idosos no país crescerá 16 vezes contra 5 vezes da população total, o que colocará o Brasil, em termos absolutos, com a sexta população de idosos do mundo, isto é, com mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais.

Não é por acaso, portanto, que o crescimento demográfico da população brasileira na faixa etária de mais de 60 anos tem sido motivo de grande interesse por parte dos pesquisadores acerca da terceira idade, entre os quais eu me incluo… Devemos, inclusive, recordar que essas projeções são baseadas em estimativas conservadoras de fecundidade e mortalidade, mas se houver uma melhoria mais acentuada em nossas regiões pobres, o envelhecimento brasileiro será muito maior.

Ou seja, estamos sempre olhando para uma perspectiva, muitas vezes, conservadora. Precisamos ir além do fenômeno chamado transição demográfica. Precisamos entender como a antiga “velhice” está sendo ressignificada, para além da ampliação numérica dos anos de vida… A Fafá de Belém, na breve conversa que tivemos, conferiu a materialidade que eu necessitava para uma reconfiguração no meu entendimento sobre a terceira idade… Obrigada Fafá, pelo afeto, pela releitura possível e pela quebra de paradigmas do que é ser idoso hoje!